Retrofitting: É Um Bom Negócio?
Reportagem de Otávio Nunes
Duas indústrias e uma escola técnica do Senai explicam os motivos que as levaram a fazer o retrofitting em suas máquinas e garantem que a reforma é um bom negócio, e com baixo investimento.
O retrofitting (reforma de máquinas com atualização tecnológica) é uma alternativa bastante viável para indústrias que desejam ter um equipamento sem investir alto na compra de um novo. Mas não é apenas isto. Trata-se também de uma forma de obter uma máquina específica, para determinado trabalho, que muitas vezes não existe no mercado nacional. Algumas empresas que fizeram retrofitting, por um ou outro motivo, dão seu depoimento nesta reportagem especial para o site da MCS Engenharia e garantem que fizeram bom negócio. Estão produzindo bem, não "estouraram" seus caixas e nem se endividaram.
A Fagmol, fabricante de moldes para injeção de plásticos, de Americana (SP), fez no ano passado retrofitting numa fresadora, aumentando o curso de fresamento de 1500 mm para 1800 mm após a troca de cabeçote e mesa. Na parte eletrônica, foi instalado um CNC - Comando Numérico Computadorizado, de fabricação da MCS, modelo SX570 - vídeo gráfico.
O proprietário da Fagmol, Sr. Antonio Carlos Fagionato, o Toninho, como gosta de ser chamado, lembra ter passado mais de dois anos procurando uma carcaça (nome que se dá a máquinas velhas), que possibilitasse a reforma a fim de obter um equipamento que fosse capaz de efetuar trabalhos de fresamento em seus moldes. "Pedi a vários amigos que encontrassem tal máquina e acabei achando aqui perto mesmo, em Santa Bárbara D´Oeste", recorda Toninho. A parte mecânica da fresadora, da marca italiana Olivetti, foi modificada pelo antigo dono, e a eletrônica (com a instalação do CNC, servomotores digitais nos três eixos e fusos de esferas recirculantes) ficou a cargo da HSE, empresa de Americana especializada em retrofitting.
Toninho informa que investiu cerca de R$ 90 mil na compra e reforma, mas ressalva que uma máquina nova, importada, custaria quase R$ 450 mil. "Poderia gastar menos no retrofitting, mas preferi instalar acessórios de primeira linha para obter o máximo resultado e atender todas as minhas necessidades e estou contente com os resultados, pois esta máquina é responsável pelo trabalho mais pesado da produção".
No ano passado, lembra ainda Toninho, a fresadora teve um ótimo desempenho na fabricação de dois moldes enormes e complexos, de duas toneladas cada, para a injeção de brinquedos (triciclos) de plástico. A Fagmol é uma ferramentaria especializada em moldes para brinquedos e tem como clientes a Bandeirante, Roma Jensen, Cotiplás e Homeplay.
Para Toninho, o retrofitting se justifica quando a carcaça encontra-se em bom estado, o que permite a obtenção de uma máquina que vá ao encontro da necessidade de produção, e também que seu custo fique bem abaixo do valor de uma similar nova. "Quer dizer, a qualidade do macarrão tem de compensar o molho", brinca e compara Toninho. A Fagmol tem outra máquina que passou por retrofitting, uma de eletroerosão, mas que foi adquirida já reformada.
A Demag Cranes & Components, do Grupo alemão Siemens, mais conhecida por Mannesmann, maior fabricante nacional de equipamentos para movimentação de cargas, como pontes rolantes e talhas elétricas, também encontrou no retrofitting a melhor alternativa para ter uma máquina a mais na fábrica, com pouco investimento. A empresa fez reforma numa retífica horizontal, também da Olivetti, que continha um comando numérico Zema.
O gerente de suprimentos, Caetano Eugenio Mammana, lembra que a parte eletrônica estava ultrapassada e não havia peças de reposição no mercado, enquanto que a estrutura mecânica apresentava bom estado de conservação, motivos que justificavam a reforma. "Instalamos um CNC MCS - modelo SX570 e inversores e obtivemos uma máquina de bom desempenho", ressalta Caetano. Ele informa que foram investidos aproximadamente R$ 50 mil no retrofitting. "Valor bem abaixo de uma retífica nova que sairia por volta de R$ 400 mil".
A Demag também reformou dois tornos mecânicos (convencionais) da Romi. Nestas máquinas, foram refeitos os barramentos e trocados alguns componentes mecânicos. Um dos tornos, com três metros de barramento, explica Caetano, não era mais fabricado, e um novo, apenas parecido, custaria a fortuna de R$ 1 milhão. "Trata-se de um torno que, após a reforma, mostra rotação baixa, mas alta remoção de cavacos, passo de 20 mm e é uma máquina bastante robusta para o trabalho que executa". O retrofitting deste Romi ficou por volta de R$ 50 mil.
A Demag fez também retrofitting em outro torno, um modelo horizontal, o TNA 480, da antiga Traubomatic. Nesta reforma, observa Caetano, foram realizadas trocas do CNC e de alguns componentes mecânicos e elétricos. Este equipamento, porém, foi vendido por R$ 120 mil a uma indústria metalúrgica. "Era uma máquina ótima, mas a sua substituição fazia parte do plano de investimentos da Demag. O equipamento, que tinha oito anos, chegou a trabalhar praticamente o dia todo, de dois a três turnos, e calculamos que ainda teria mais cinco anos de vida útil", continua.
Este desempenho do Traubomatic assegura Caetano, não seria possível sem a reforma. "Se não fosse o retrofitting, este torno nos causaria muitos transtornos com manutenção e paradas constantes e hoje, esta máquina continua trabalhando bem na indústria que o adquiriu".
Assim como Toninho, da Fagmol, Caetano recomenda o retrofitting não apenas como contenção de custos, mas, sobretudo para a aquisição de uma máquina específica, difícil de ser encontrada no mercado. No entanto, ele acha que para o negócio ser viável economicamente, o valor de uma reforma, incluindo a compra do equipamento, deve custar no máximo 30% do preço de uma máquina nova. "Cheguei a este percentual pelos anos de experiência, mas reconheço que é relativo, pode haver exceções", ressalva Caetano.
Na Escola Senai - Conde Alexandre Siciliano, em Jundiaí (SP), também há uma máquina que passou por retrofitting. Embora tenha sido uma reforma mais simples, apenas a parte eletrônica foi modificada para a troca de CNC, os resultados foram tão bons como na Fagmol e Demag. O coordenador técnico, Sr. Durval Agostinho dos Santos, informa se tratar de um torno Nardini TT 125-E que possuía um CNC MCS, modelo 210 com display, muito específico. "Não podíamos usar esse torno para aulas, porque os alunos teriam o conhecimento restrito somente àquela máquina. Por isso, optamos pela troca por um CNC também MCS, modelo SX550 - vídeo gráfico, de linguagem universal, no qual os estudantes formados têm condições de operar outros equipamentos, tornando mais amplo o mercado de trabalho para eles", conta Durval.
A atualização tecnológica atendeu as expectativas, garante Durval. Hoje, aquele torno de dois eixos faz parte do aprendizado de alunos dos cursos de mecânico de usinagem. No período noturno, a máquina é também aproveitada nos cursos especiais do Senai, de iniciação ao CNC e de programação e operação de torno CNC, para profissionais que já trabalham no setor e desejam fazer reciclagem de conhecimentos, ou aqueles profissionais que desejam atuar na área do CNC.